Aterramento

Resistividade do solo pelo método de Wenner: por que medir antes de projetar

Arranjo de Wenner com quatro eletrodos em linha, corrente injetada nos externos e tensão medida nos internos, ao lado de uma curva de resistividade por espaçamento mostrando solo de duas camadas.

Projetar uma malha de aterramento sem conhecer o solo é dimensionar no escuro. O projetista chuta um valor de resistividade, calcula a malha, a obra executa — e a medição final revela o dobro da resistência prevista. Aí começa a fase cara: mais hastes, mais cabo, tratamento químico de solo, tudo em obra já entregue. A sondagem elétrica do terreno custa uma fração disso e acontece antes, quando mudar o projeto ainda é apagar linha no CAD.

A propriedade que se mede chama-se resistividade: a resistência que um volume unitário daquele solo oferece à passagem de corrente, expressa em ohm-metro. Solos variam de dezenas a milhares de ohm-metro. Entre um e outro extremo, a mesma malha entrega resultados completamente diferentes.

O método

O arranjo de Wenner usa quatro eletrodos cravados em linha reta, igualmente espaçados de uma distância a. Os dois externos injetam corrente no solo; os dois internos medem a tensão resultante. O instrumento entrega uma resistência R, e a resistividade aparente sai da relação ρ = 2πaR — válida quando a profundidade de cravação dos eletrodos é pequena diante do espaçamento.

A palavra importante é “aparente”. O valor obtido não é a resistividade de um ponto: é uma média ponderada do volume de solo que a corrente atravessou. E aqui está a elegância do método: a profundidade alcançada pela corrente cresce com o espaçamento. Eletrodos a 2 m enxergam as camadas rasas; a 16 m, camadas profundas. Repetindo a medição com espaçamentos progressivos — a série típica dobra o valor a cada passo, algo como 1, 2, 4, 8, 16 e 32 m —, obtém-se um perfil da resistividade em profundidade.

Esse perfil raramente é uma linha reta, pois solo real é estratificado. Uma camada superficial ressecada sobre argila úmida; rocha a poucos metros; lençol freático raso. A curva de resistividade aparente contra espaçamento revela essa estrutura, e a partir dela o projetista modela o solo em camadas — o modelo de duas camadas resolve a maior parte dos casos práticos. É esse modelo, não um número solto, que alimenta o projeto da malha.

A prática no terreno

Medição de resistividade tem menos glamour e mais caminhada do que parece.

Mede-se em mais de uma direção. Um único alinhamento pode cair, sem que ninguém saiba, sobre uma tubulação metálica enterrada, uma antiga vala de cabos, um lençol localizado. Duas ou três direções no mesmo terreno, com os resultados comparados, filtram a anomalia — divergência grande entre direções é sinal de interferência ou de solo fortemente heterogêneo, e ambas as hipóteses interessam ao projeto.

Regista-se a condição do terreno: chuva recente, estiagem, temperatura. Resistividade varia com umidade de forma dramática, e a medição de um dia não representa o ano. O projeto responsável trabalha com a condição desfavorável — solo seco —, pois a malha precisa funcionar no pior mês, não no melhor. Quando a sondagem só pôde ser feita em período úmido, aplica-se correção conservadora — e o fator usado se confirma caso a caso, contra o procedimento de projeto vigente.

E documenta-se a posição dos alinhamentos, pelo mesmo motivo de sempre: medição que não pode ser reproduzida não pode ser comparada.

Onde o método erra

Espaçamento pequeno com haste funda. A fórmula ρ = 2πaR pressupõe eletrodo raso diante do espaçamento. Cravar meio metro de haste para medir com a de um metro viola a premissa e distorce o resultado nas leituras curtas — justamente as que caracterizam a camada superficial, onde ficam as tensões de passo.

Metal enterrado ignorado. Terreno industrial e entorno de subestação são minados de interferências: malhas antigas, bainhas, tubulações. Medir em cima delas produz resistividade falsamente baixa, e o projeto herda o otimismo.

Medir só depois da chuva. O erro sazonal clássico. O terreno aprovado em março reprova em setembro, mas a malha já está enterrada.

Confiar num ponto só. Solo é heterogêneo por natureza. Uma leitura, uma direção, um espaçamento: isso é amostra, não caracterização.

Do número ao projeto

Com o perfil de resistividade em mãos, o projeto deixa de ser chute. Define-se a geometria da malha, a quantidade e a profundidade de hastes, a necessidade ou não de tratamento de solo, e estima-se a resistência final — que a medição de comissionamento, feita pelo método da queda de potencial (como se mede resistência de aterramento), vai confirmar. O valor de aceitação, por sua vez, depende da função da malha, e disso trato em critérios de aceitação de malha de terra.

Há terrenos que condenam soluções inteiras. Resistividade altíssima sobre rocha rasa pode inviabilizar a malha convencional e empurrar o projeto para hastes profundas ou tratamento químico. Descobrir isso na sondagem custa um dia de campo. Descobrir na medição final custa a obra de novo.

Conclusão

Wenner é um método centenário, quatro estacas e uma fórmula de uma linha. O que ele entrega, mas, não é um número — é o retrato do solo em profundidade, a única base honesta para projetar aterramento.

Solo não medido é premissa inventada. E projeto sobre premissa inventada é orçamento em aberto.

Fontes técnicas consultadas: NBR 5410; Creder — Instalações Elétricas

Conteúdo técnico de caráter informativo, elaborado sob responsabilidade de Eng. Eliezer Batista Carsoni, engenheiro eletricista — CREA PR-172882/D. Não substitui projeto, laudo ou vistoria específicos para cada instalação.