Aterramento
Quantos ohms é "bom"? Critérios de aceitação de malha de terra
É a pergunta mais frequente depois de qualquer medição: “passou?”. E a resposta honesta irrita quem esperava um número mágico — depende. Depende da função daquele aterramento, do esquema da instalação, da proteção que existe a jusante e do que o projeto definiu. Os famosos 10 ohms viraram folclore de tão repetidos, mas repetição não é norma.
Vale desmontar o folclore com calma, pois o critério errado aprova instalação perigosa e reprova instalação boa.
Por que não existe número universal
O aterramento não protege sozinho; protege em conjunto com os dispositivos de seccionamento, como discuti em aterramento: proteger pessoas, não só equipamentos. O valor de resistência aceitável é o que faz esse conjunto funcionar — e o conjunto muda de instalação para instalação.
Num esquema TT, em que as massas têm eletrodo próprio, o critério da NBR 5410 amarra a resistência do eletrodo à sensibilidade do DR: o produto da resistência pela corrente de atuação do dispositivo precisa manter a tensão de falta abaixo do limite de segurança. Com um DR de alta sensibilidade, uma resistência de algumas centenas de ohms ainda cumpre a condição. Com proteção só por disjuntor, o mesmo valor seria inaceitável.
Num esquema TN, a pergunta muda de figura: o que importa é a impedância do percurso completo da corrente de falta — condutor de fase, condutor de proteção, conexões —, baixa o suficiente para o disjuntor atuar no tempo exigido. A resistência da malha em si é uma parcela do problema, não o problema.
Para SPDA, a referência histórica de projeto gira em torno de 10 Ω para o subsistema de aterramento, hoje em dia esse valor não é mais obrigatório, tendo a continuidade como valor a ser melhor analisado. Mas descarga atmosférica é fenômeno de alta frequência, e o comportamento em impulso não se resume à resistência medida em baixa frequência — geometria e equipotencialização pesam tanto quanto o valor ôhmico.
E há o critério contratual: concessionária ou projeto executivo podem exigir valor mais restritivo. Em subestação, o teto adotado — geral ou por ponto, quando projeto ou concessionária diferenciam — se confirma caso a caso, no critério documentado daquela instalação. Critério de projeto documentado vence discussão genérica.
O critério que quase ninguém usa: tendência
Uma malha enterrada se degrada em silêncio. Conexão que corrói, cabo que rompe na movimentação de solo, haste que perde contato. Nenhum desses eventos avisa; todos aparecem na série histórica.
Por isso a prática de manutenção madura estabelece uma linha de base — a medição de comissionamento, ou a primeira medição bem documentada — e compara cada medição anual com ela. O sinal de alerta não é cruzar um limite absoluto: é o desvio. A variação sobre a linha de base que dispara investigação se define caso a caso, no critério de manutenção da instalação, mesmo que o valor absoluto siga “aprovado”.
O raciocínio é simples. Uma malha que mediu 4 Ω por cinco anos e de repente mede 7 Ω continua abaixo dos 10 Ω do folclore — e está gritando que algo mudou embaixo da terra. O laudo que só olha o valor absoluto carimba “conforme” em cima de uma malha se desfazendo.
Tendência exige disciplina de método: mesmo arranjo de estacas, mesma época do ano registrada, condição de solo anotada. Medição de estiagem comparada com medição pós-chuva gera falso alarme ou falsa tranquilidade — os detalhes estão em como se mede resistência de aterramento.
Como um laudo sério define aceitação
Primeiro, identifica a função do eletrodo: proteção de BT, SPDA, subestação, referência de sinal. Cada função, seu critério.
Segundo, resgata o que o projeto e a concessionária exigem. Existindo valor de projeto, ele é o critério — e o laudo cita a origem.
Terceiro, aplica a norma pertinente à função, citada pelo número e pelo escopo, sem inventar limite onde a norma estabelece condição.
Quarto, compara com o histórico. Sem histórico, a medição atual vira a linha de base das próximas — e o laudo diz isso explicitamente.
O resultado é uma conclusão em camadas: conforme com o projeto, dentro da condição normativa, tendência estável. Três afirmações verificáveis, em vez de um “aprovado” solto.
Erros comuns
Perseguir o número redondo. Gastar tratamento químico para baixar de 12 Ω para 9 Ω numa instalação TT protegida por DR é dinheiro enterrado — literalmente — sem ganho de segurança correspondente.
Aprovar pelo absoluto ignorando a série. O caso dos 4 Ω que viraram 7.
Comparar medições incomparáveis. Métodos diferentes, arranjos diferentes, estações diferentes. A planilha mostra variação; a variação é do método.
Aceitar laudo sem critério declarado. “Resistência: 6,2 Ω — aprovado.” Aprovado segundo o quê? Laudo que não cita o critério não é laudo, é boletim de medição com carimbo.
Conclusão
“Quantos ohms é bom” é pergunta que só tem resposta dentro de um contexto: função, esquema, proteção, projeto, histórico. O número mágico universal não existe, mas o critério bem definido existe — e cabe ao laudo declará-lo.
Desconfie do aprovado sem critério. O papel aceita qualquer coisa; a corrente de falta, não.
Fontes técnicas consultadas: NBR 5410; NBR 5419