Aterramento

Aterramento: proteger pessoas, não só equipamentos

Diagrama de uma falta fase-massa em um motor, mostrando o percurso da corrente pelo condutor de proteção até a malha de aterramento e o disjuntor desligando o circuito.

“A instalação tem terra.” A frase aparece em quase toda vistoria, dita com a confiança de quem encerrou o assunto. Depois vem a medição, a inspeção das conexões, e o quadro muda. Haste solta, condutor de proteção interrompido, emenda oxidada dentro de caixa de passagem. O terra existia no papel. No circuito, não.

Existe uma confusão de fundo aí. Boa parte das pessoas entende o aterramento como proteção do equipamento — o computador que não queima, o freezer que não “dá choque na carcaça”. O equipamento importa, mas é o efeito secundário. A função primária do aterramento é proteger gente.

O que o aterramento faz de verdade

Três funções, encadeadas.

Primeira: dar referência de potencial à instalação. Sem um ponto de referência estável, as massas metálicas flutuam em tensões imprevisíveis. Com ele, tudo que não deveria ter tensão fica amarrado ao potencial da terra.

Segunda: oferecer caminho de retorno para a corrente de falta. Quando a isolação de um condutor falha e a fase toca a carcaça de um motor, essa corrente precisa ir para algum lugar. Se o caminho de volta tem baixa impedância, a corrente cresce o suficiente para o disjuntor ou o DR desligar o circuito em tempo seguro. A NBR 5410 chama esse mecanismo de seccionamento automático da alimentação — e ele é o coração da proteção contra choque por contato indireto. O aterramento sozinho não protege ninguém, pois quem desliga a falta é o dispositivo de proteção. Mas sem o caminho de baixa impedância, o dispositivo nunca enxerga a falta.

Terceira: equipotencializar. Se duas massas metálicas ao alcance da mão estiverem em potenciais diferentes durante uma falta, o corpo de quem toca as duas vira o condutor entre elas. A equipotencialização amarra tudo ao mesmo potencial — e esse tema rende um artigo próprio: equipotencialização e BEP.

O perigo real para uma pessoa se mede em tensão de toque e tensão de passo. Tensão de toque: a diferença de potencial entre uma massa energizada por falta e o piso onde a pessoa está. Tensão de passo: a diferença de potencial entre os dois pés, sobre um solo que está escoando corrente. Um aterramento bem projetado mantém as duas dentro de limites suportáveis durante o tempo que a proteção leva para atuar.

O que um laudo de aterramento avalia

Medição de resistência é a parte famosa, mas é um terço do trabalho.

O laudo começa pela inspeção. Conexões visíveis da malha, caixas de inspeção das hastes, estado dos conectores, sinais de corrosão, seção dos condutores de proteção e de equipotencialização. Uma conexão oxidada pode adicionar mais resistência ao circuito de falta do que a malha inteira.

Depois vem a continuidade. De nada serve uma malha excelente se o condutor de proteção que sai dela está interrompido no meio do caminho. Verifica-se a continuidade entre as massas da instalação e o ponto de aterramento, conexão por conexão, com critério de aceitação definido em projeto — na prática de manutenção, valores de fração de ohm por conexão.

Por fim, a medição da resistência de aterramento propriamente dita, com método e instrumento adequados. Como se mede, e onde o método erra, está detalhado em como se mede resistência de aterramento. E o que fazer com o número — pois 10 Ω pode ser ótimo numa instalação e insuficiente em outra — está em critérios de aceitação de malha de terra.

O resultado se compara com o valor de projeto, com a exigência da concessionária quando houver, e com o histórico da própria instalação. Tendência diz mais que fotografia.

Erros comuns que a vistoria encontra

O clássico: a haste isolada. Alguém cravou uma haste atrás do galpão, ligou um fio verde nela e considerou o problema resolvido. Sem interligação com o aterramento da entrada, sem equipotencialização, às vezes sem continuidade com coisa alguma. Em certas condições de falta, essa haste órfã cria justamente a diferença de potencial que deveria eliminar.

O condutor de proteção seccionado. Reforma mexeu no circuito, o eletricista reaproveitou o eletroduto e o fio terra ficou pelo caminho. As tomadas têm três pinos, mas o terceiro pino não leva a lugar nenhum. Só a medição de continuidade revela.

O esquema de aterramento ignorado. TN, TT e IT distribuem funções de forma diferente entre neutro, terra e proteção — e misturar os esquemas sem critério gera correntes de retorno por onde não deveriam passar. O tema tem artigo dedicado: esquemas de aterramento TN, TT e IT sem mistério.

E o mais sutil: a instalação que “passou” na medição com as conexões podres. O terrômetro mediu a malha num dia úmido, o número ficou bonito, mas o percurso da corrente de falta — que passa pelas conexões, não só pela malha — estava comprometido. Medição sem inspeção é meio laudo.

Conclusão

Aterramento é sistema, e sistema se avalia inteiro: malha, conexões, condutores de proteção, equipotencialização, coordenação com a proteção. O número do terrômetro é uma peça desse conjunto. Importante, mas sozinho não diz se alguém está protegido.

Quem contrata um laudo não está comprando um número. Está comprando a verificação de que a corrente de falta tem por onde voltar — e de que o desligamento vem antes do acidente.

O resto é fio verde decorativo.

Fontes técnicas consultadas: NBR 5410; Creder — Instalações Elétricas

Conteúdo técnico de caráter informativo, elaborado sob responsabilidade de Eng. Eliezer Batista Carsoni, engenheiro eletricista — CREA PR-172882/D. Não substitui projeto, laudo ou vistoria específicos para cada instalação.